As criptomoedas no Camboja deixaram há muito de ser apenas uma ferramenta de investimento ou uma experiência tecnológica. Na realidade, servem como unidade básica de conta numa economia paralela de grande escala que sustenta fraudes, jogo ilegal e transacções "cinzas" transfronteiriças. Esta é a opinião de um especialista anónimo que trabalhou neste sistema durante oito anos e observou a sua evolução por dentro.
O Papel do USDT na Economia Paralela
De acordo com o especialista, a stablecoin USDT tornou-se a "força vital" financeira da infraestrutura subterrânea do Camboja. Ao contrário do sistema bancário tradicional, as transações com criptomoedas no país são construídas em torno de intermediários financeiros semioficiais. Um papel fundamental neste processo é desempenhado pela Huione, uma empresa conhecida como "Huiwang", que funciona efetivamente como um banco central clandestino. Através deste, o USDT é convertido em dólares e vice-versa, proporcionando uma liquidez rápida e anónima.
Isto é crucial para os participantes do mercado cinzento, uma vez que a utilização de grandes corretoras de criptomoedas com procedimentos KYC (conheça o seu cliente) e transferências bancárias cria o risco de bloqueio e investigações. Por conseguinte, a Huione oferece o anonimato e a rapidez necessários, tornando-se atraente para aqueles que operam fora da estrutura legal.
Realidade Financeira Paralela
Um perito anónimo observou ainda que o Telegram e o USDT se tornaram a base de uma realidade financeira paralela que existe fora do quadro legal. Todas as transações, desde os acertos entre grupos fraudulentos até às grandes transações em dinheiro, são coordenadas através de aplicações de mensagens. Dentro do ecossistema da Huione, as transferências em USDT são instantâneas e sem comissão, e as taxas são cobradas apenas para levantamentos em dinheiro. Isto torna estes canais mais eficientes do que as transferências internacionais legais.
Tensão no Mercado
No entanto, no início de Dezembro, o sistema enfrentou sérias dificuldades. No meio da pressão das sanções e do encerramento das lojas físicas da Huione no Camboja, o pânico instalou-se. Os utilizadores não conseguiam levantar fundos e a taxa de câmbio do dólar local da Huione para o dólar em espécie caiu 50%. Isto abalou o mercado e colocou em risco a existência de muitas operações dependentes desta estrutura financeira clandestina.
Em conclusão
Assim, as criptomoedas, e o USDT em particular, tornaram-se parte integrante da economia informal do Camboja, proporcionando anonimato e rapidez nas transações para os participantes do mercado cinzento. No entanto, os acontecimentos recentes mostram que este sistema pode ser vulnerável a influências externas e a sanções, pondo em causa a sua sustentabilidade a longo prazo.